Considerações sobre a inimizade (La Rochefoucauld)

La Rochefoucauld

(82) A reconciliação com os nossos inimigos não é senão um desejo de tornar a nossa condição melhor, uma lassidão da guerra, e um receio de qualquer mau acontecimento.

 (114) Ninguém se pode consolar de ser enganado pelos seus inimigos, e traído pelos seus amigos; e fica-se frequentemente satisfeito de o ser por si mesmo.

 (397) Nós não temos a coragem de dizer em geral que não temos nenhum defeito, e que os nossos inimigos de todo não têm boas qualidades; mas ao pormenor não estamos muito distantes de o acreditarmos.

 (458) Os nossos inimigos aproximam-se mais da verdade nos juízos que fazem de nós do que nós próprios nos aproximamos.

 (463) Há frequentemente mais orgulho do que bondade em lamentar as infelicidades dos nossos inimigos; é para lhes fazer sentir que somos superiores a eles que nós lhes damos sinais de compaixão.

 (4 Máximas suprimidas) A ruína do próximo agrada aos amigos e aos inimigos.

 (La Rochefoulcauld, Réflexions ou sentences et maximes morales; Le livre de poche, Classique, Librairie Génerale Française, 1991. [Trad.: Wilson Rodrigues]).

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Sobre a inimizade

Quanto à inimizade e ao ódio há que estudá-los a partir dos seus contrários. A ira, o vexame e a calúnia são as causas da inimizade. Ora, a ira resulta de coisas que afectam directamente uma pessoa, mas a hostilidade também pode resultar de coisas que nada têm de pessoal: basta supormos que uma pessoa tem tal ou tal carácter para a odiarmos. Por outro lado, a ira refere-se sempre a um indivíduo particular, por exemplo, a Cálias ou a Sócrates, mas o ódio também abrange toda uma classe de pessoas: toda a gente odeia o ladrão e o sicofanta. O tempo pode curar a ira, mas o ódio é incurá­vel. A primeira procura meter dó [fazer dor], o segundo procura fazer mal, já que o homem irado deseja sentir o mal que causa, mas o que odeia nada lhe importa isso. As coisas que causam pena [dor] são todas sen­síveis, mas as que causam maiores males são as menos sensíveis, como a injustiça e a loucura; com efeito, a presença do mal não nos causa pena. A ira também é acompanhada de pena, mas não o ódio; o homem irado sente pena, mas não o que odeia. Um pode sentir compaixão em muitas circunstâncias, o outro nunca; o primeiro deseja que aquele contra quem está irado sofra por sua vez; o segundo, que deixe de existir aquele a quem odeia.

Do que até agora dissemos, resulta claro que é possível demonstrar que classe de pessoas são inimigas e amigas, e fazer com que o sejam se não o forem, ou refutá-las se afirmam que o são; e se, devido à ira ou à iminizade, se tornam nossas adversárias, então há que ‘encaixá-las’ nas duas categorias, conforme cada um prefira.

 (Aristóteles, Retórica; INCM, Estudos Gerais, Série Universitária, Clássicos de Filosofia, Lisboa, 1998. [1382a] Livro II, 4, pp. 117-118).

Sobre a amizade

(…) Admitamos que amar é querer para alguém aquilo que pensamos ser uma coisa boa, por causa desse alguém e não por causa de nós. Pôr isto em prática implica uma determinada capacidade da nossa parte. É amigo aquele que ama e é reciprocamente amado. Consideram-se amigos os que pensam estar mutuamente nestas disposições.

Colocadas estas hipóteses, é necessário que seja nosso amigo aquele que se regozija com as coisas boas e se entristece com as nossas amarguras, sem outra razão que não seja a pessoa amada. Todos nós nos alegramos quando acontece aquilo que desejamos, mas todos nos entristecemos com o contrário, de tal sorte que a dor e o prazer são sinais da vontade. Também são amigos aqueles que têm por boas e más as mesmas coisas, e por amigos e inimigos as mesmas pessoas. Daí resulta, forçosamente, querer para os amigos o que se deseja para si próprio; de modo que, são amigos aqueles que, ao quererem para si o que querem para a pessoa amada, mostram com toda a evidência que são amigos dela. Amam-se os nossos benfeitores tanto os que cuidam de pessoas que estão a nosso cargo, como os que nos prestam serviços, sejam estes importantes ou feitos com boa intenção, ou em ocasiões oportunas e tendo em vista o nosso interesse, ou os que eventualmente achamos que estariam dispostos a beneficiar-nos. E também os amigos dos nossos amigos, os que amam os que nós amamos e os que são amados pelas pessoas que nós amamos. Do mesmo modo, os que têm os mesmos inimigos que nós e odeiam os que nós odiamos, assim como aqueles que são odiados pelos mesmos que nós odiamos. Para todas estas pessoas parece haver as mesmas coisas boas que há para nós; por conseguinte, desejam para elas as mesmas coisas boas que para nós, o que, segundo a nossa definição, é próprio do amigo.

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Sobre a ira

Admitamos que a ira é um desejo acompanhado de dor que nos incita a exercer vingança explícita por causa de um desdém manifestado contra nós, ou contra pessoas da nossa convivência, sem haver razão para tal. Se a ira é isto, forçoso é que o iracundo se volte sempre contra um determinado indivíduo, por exemplo, contra Cléon, mas não contra o homem em geral; e que seja por algum agravo que lhe fizeram ou pretendiam fazer, a ele ou a algum dos seus; além disso, toda a ira é acompanhada de certo prazer, resultante da esperança que se tem de uma futura vingança. De facto, há prazer em pensar que se pode alcançar o que se deseja; mas como ninguém deseja o que lhe é manifestamente impossível, o homem irascível deseja o que lhe é possível. Por isso, razão tem o poeta para dizer sobre a ira:

que, muito mais doce do que o mel destilado,

cresce nos corações dos homens.

Por isso, há um certo prazer que acompanha a ira, e também porque o homem vive na ideia de vingança, e a representação que então se gera nele inspira-lhe prazer, tal como a que se produz nos sonhos.

O desdém é uma opinião em acto relativo a algo que, aparentemente, não parece digno de qualquer crédito (pois pensamos que tanto as coisas más como as boas são dignas de interesse, assim como o que para elas tende, ao passo que, ao que não damos nenhuma ou muito pouca importância supomo-lo desprovido de valor). Há três espécies de desdém: o desprezo, o vexame e o ultraje.

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Sobre a calma

Uma vez que estar encolerizado é o contrário de estar calmo, e a ira é o oposto da calma, temos de tratar dos estados de espírito dos calmos, em relação a quem, e por que razões assim estão. Vamos admitir que a calma pode ser definida como um apaziguamento e uma pacificação da ira. Ora, se os seres humanos se encolerizam contra os que os desprezam e esse desprezo é voluntário, é evidente que, em relação aos que não procedem da mesma maneira, ou o fazem involuntariamente ou aparentam fazê-lo, mostram-se calmos. De modo semelhante, mostram-se calmos com os que pretendem o contrário do que eles próprios fizeram; com os que fazem o mesmo consigo próprios, pois ninguém parece desprezar-se a si  próprio; com os que reconhecem as suas faltas e se arrependem, visto que, o mal-estar que provocaram nos outros, os fazem sentir culpados e põem cobro à ira. Um indício do que acabámos de dizer está no castigo dado aos escravos: castigamos sobretudo os que nos contradizem e negam as suas faltas, mas apaziguamos a nossa ira com os que reconhecem que são castigados com justiça. A razão deste procedimento é que negar uma evidência é uma vergonha e que o desaforo é desprezo e desdém; pelo menos, não nos envergonhamos diante daqueles por quem temos um grande desprezo e dos que se humilham na nossa presença e não nos contradizem, pois parecem admitir que são inferiores, e os inferiores são medrosos, e quem não é medroso não despreza. A prova de que a ira cessa em relação aos que se humilham está nisto: até os cães mostram que não mordem as pessoas que se sentam; e com os que falam a sério, quando eles também procedem com seriedade, pois parece-lhes que quem fala a sério não desdenha; e com os que retribuem um favor com um favor maior; com os necessitados e suplicantes, porque são mais humildes; com os que não são soberbos, nem trocistas, nem desdenhosos com ninguém, nem com gente honrada, nem com os que são semelhantes a eles. (…)

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O carácter do orador

Aristóteles

Três são as causas que tornam persuasivos os oradores e a sua importância é tal que por elas nos persuadimos, sem necessidade de demonstrações. São elas a prudência, a virtude e a benevolência. Quando os oradores recorrem à mentira nas coisas que dizem ou sobre aquelas que dão conselhos, fazem-no por todas essas causas ou por algumas delas. Ou é por falta de prudência que emitem opiniões erradas ou então, embora dando uma opinião correcta, não dizem o que pensam por maldade; ou sendo prudentes e honestos não são benevolentes; por isso, é admissível que embora sabendo eles o que é melhor, não o aconselhem. Para além destas, não há nenhuma outra causa. Forçoso é, pois, que aquele que aparenta possuir todas estas qualidades inspire confiança nos que o ouvem. Por isso, o modo como é possível mostrar-se prudente e honesto deve ser deduzido das distinções que fizemos relativamente às virtudes, uma vez que, a partir de tais distinções, é possível alguém apresentar outra pessoa e até apresentar-se a si próprio sob este ou aquele aspecto.

(Aristóteles, Retórica; INCM, Estudos Gerais, Série Universitária, Clássicos de Filosofia, Lisboa, 1988. [1377b-1378a], ]Livro II, 1 A emoção, pp. 106-107).

A retórica e as emoções

Aristóteles

Uma vez que a retórica tem por objectivo formar um juízo (porque também se julgam as deliberações e a acção judicial é um juízo) é necessário, não só procurar que o discurso seja demonstrativo e fidedigno, mas também que o orador mostre uma determinada atitude e a maneira como há-de dispor favoravelmente o juiz. Muito conta para a persuasão, sobretudo nas deliberações e, naturalmente, nos processos judiciais, a forma como o orador se apresenta e como dá a entender as suas disposições aos ouvintes, de modo a fazer com que, da parte destes, também haja um determinado estado de espírito para com o orador. A forma como o orador se apresenta é mais útil nos actos deliberativos, mas predispor o auditório de uma determinada maneira é mais vantajoso nos processos judiciais. Os factos não se apresentam sob o mesmo prisma a quem ama e a quem odeia, nem são iguais para o homem que está indignado e para o calmo, mas, ou são completamente diferentes ou diferem segundo critérios de grandeza. Por um lado, quem ama acha que o juízo que deve formular sobre quem é julgado é de não culpabilidade ou de pouca culpabilidade; por outro, quem odeia acha o contrário. Quem deseja e espera alguma coisa, se o que estiver para acontecer for à medida dos seus desejos, não só lhe há-de parecer que tal coisa acontecerá, como até será uma coisa boa; mas para o insensível e para o mal-humorado passa-se exactamente o contrário. (…)

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Seis leais serventes, Rudyard Kipling

Mantenho seis leais serventes:
(Ensinam-me tudo quanto sei)
Os seus nomes são O Quê e Onde e Quando
E Como e Porquê e Quem.
Envio-os por mar e terra,
Envio-os para Este e Oeste;
Mas depois de trabalharem para mim,
Dou-lhes algum descanso.

 

Deixo-os descansar das nove às cinco.
Pois então estou ocupado,
Assim como ao pequeno-almoço, ao almoço e ao lanche,
Pois são homens famintos:
Mas cada cabeça sua sentença:
Conheço uma pessoa pequena –
Sustenta dez milhões de serventes,
Que de todo não têm descanso!
Envia-os ao estrangeiro nos seus assuntos privados,
Desde o segundo em que abre os olhos –
Um milhão de Comos, dois milhões de Ondes,
E sete milhões de Porquês!
(Rudyard Kipling, Histórias assim mesmo; Trad. WR).

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A mulher incorpórea

Tens cinco sentidos. Isso é evidente para ti e para mim. Nem mais, nem menos. Mas na verdade temos seis sentidos. Um dos nossos sentidos funciona tão bem que podemos viver uma vida inteira sem saber que o temos. Só o descobrimos quando o perdemos ou quando alguém nos fala dele. Eu vivi cerca de vinte anos sem saber que tinha proprioceção. Só fiquei a saber que tinha esse sentido quando li O homem que confundiu a mulher com um chapéu, um livro de Oliver Sacks. A obra relata o caso verídico de Cristina, uma mulher de vinte e sete anos que perdeu a proprioceção e com ela a capacidade de saber se tinha e onde estavam os pés, os braços e a própria cara. A proprioceção é o sentido percetivo que nos dá a certeza de termos um corpo, de sabermos onde está cada uma das suas partes e de coordenar todos os nossos movimentos, incluindo os movimentos dos músculos necessários à fala e ao sorriso. Sem ele a nossa vida tal como a temos construída ruiria por completo.

                Deixo a baixo extratos do impressionante e esclarecedor texto de Oliver Sacks.

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Manifesto ‘Ética global para a economia’

por ANSELMO BORGES 09 Abril 2011

Publicado no jornal www.dn.pt

Embora o teólogo Hans Küng seja conhecido pelos media e pelo grande público, em primeiro lugar, por causa dos diferendos com o Vaticano, julgo que o seu nome ficará sobretudo ligado ao diálogo inter-religioso, ao Parlamento das Religiões Mundiais, à “Declaração para uma Ética Mundial”, à Fundação Weltethos, a que preside.

Foi precisamente por iniciativa da Fundação Welthos e em ligação com a “Declaração para uma Ética Mundial”, do Parlamento das Religiões Mundiais, em Chicago, em 1993, que, no quadro de uma economia ecológico-social de mercado, surgiu o Manifesto “Global Economic Ethic”, assinado por figuras relevantes da Política, das Igrejas, das Universidades, da Banca, e tornado público em 2009, em Nova Iorque e em Basileia.

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