Sobre a calma

Uma vez que estar encolerizado é o contrário de estar calmo, e a ira é o oposto da calma, temos de tratar dos estados de espírito dos calmos, em relação a quem, e por que razões assim estão. Vamos admitir que a calma pode ser definida como um apaziguamento e uma pacificação da ira. Ora, se os seres humanos se encolerizam contra os que os desprezam e esse desprezo é voluntário, é evidente que, em relação aos que não procedem da mesma maneira, ou o fazem involuntariamente ou aparentam fazê-lo, mostram-se calmos. De modo semelhante, mostram-se calmos com os que pretendem o contrário do que eles próprios fizeram; com os que fazem o mesmo consigo próprios, pois ninguém parece desprezar-se a si  próprio; com os que reconhecem as suas faltas e se arrependem, visto que, o mal-estar que provocaram nos outros, os fazem sentir culpados e põem cobro à ira. Um indício do que acabámos de dizer está no castigo dado aos escravos: castigamos sobretudo os que nos contradizem e negam as suas faltas, mas apaziguamos a nossa ira com os que reconhecem que são castigados com justiça. A razão deste procedimento é que negar uma evidência é uma vergonha e que o desaforo é desprezo e desdém; pelo menos, não nos envergonhamos diante daqueles por quem temos um grande desprezo e dos que se humilham na nossa presença e não nos contradizem, pois parecem admitir que são inferiores, e os inferiores são medrosos, e quem não é medroso não despreza. A prova de que a ira cessa em relação aos que se humilham está nisto: até os cães mostram que não mordem as pessoas que se sentam; e com os que falam a sério, quando eles também procedem com seriedade, pois parece-lhes que quem fala a sério não desdenha; e com os que retribuem um favor com um favor maior; com os necessitados e suplicantes, porque são mais humildes; com os que não são soberbos, nem trocistas, nem desdenhosos com ninguém, nem com gente honrada, nem com os que são semelhantes a eles. (…)

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Novas orientações ao programa de Filosofia do 10º e 11º ano

A introdução do exame de Filosofia no ensino secundário obrigou a novas orientações de uniformidade na preparação dos alunos. O Dúvida Metódica já lançou o documento das novas orientações assinado por Alexandre Sá, Manuela Bastos, Maria do Carmo Themudo, Pedro Alves e Ricardo Santos.

O documento poderá ser lido aqui.

A felicidade não existe. Só a serenidade

Luc Ferry: “A felicidade não existe. Só a serenidade”

Luc Ferry em seu escritório em Paris (Bassignac Gilles/Gamma)

Para o filósofo francês, todas as grandes filosofias tentaram fazer com que os homens vencessem seus medos. Hoje, a ecologia se baseia na proliferação do medo

A popularidade do filósofo francês Luc Ferry, 60 anos, também é alicerçada na originalidade de suas frases de efeito. Por exemplo: “A felicidade não existe, o que existe é a serenidade”. Ou: “Todas as grandes filosofias e religiões tentaram fazer com que os homens vencessem seus medos. Hoje, a ecologia política se baseia na proliferação do medo”. Lançada em 2006, Aprender a viver, sua obra de maior sucesso, vendeu mais de 700.000 exemplares em dezenas de idiomas. Entre seus últimos livros estão Famílias, amo vocês e A tentação do cristianismo. Ministro da Educação da França de 2002 a 2004, foi o idealizador da lei que proibiu o uso de véu por estudantes muçulmanas nas escolas públicas francesas. Alto, cabelos negros e ondulados, Ferry expôs, entre uma tragada e outra, um pouco da teoria que mistura filosofia, psicanálise e irresistíveis pitadas de autoajuda.

Qual é o maior obstáculo à felicidade? A felicidade não existe. Temos momentos de alegria, mas não existe um estado permanente de satisfação. Separações, a morte de pessoas queridas, doenças e acidentes são inevitáveis. É por isso que a busca pela felicidade plena não faz sentido. O que podemos almejar é a serenidade, algo completamente diferente. Só se atinge a serenidade vencendo o medo. É o medo que nos torna egoístas e nos paralisa, que nos impede de sorrir e de pensar de forma inteligente, com liberdade. Os filósofos gregos costumavam dizer que o sábio é aquele que consegue vencer o medo.

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