A filosofia e a sua radicalidade

Raízes (Joan Garrigosa)

A filosofia é radical logo na sua origem porque resulta do nosso eu, ou seja, do âmago da nossa identidade. O nosso eu, ainda que uno, vive numa tensão entre aquilo que é e aquilo que gostaria de ser. Ora nenhum de nós gostaria de estar enganado nas coisas que lhe dizem respeito. O nosso eu prefere saber a verdade sobre o que se está a passar consigo mesmo, a estar enganado. Seguidamente, poderemos ver com maior clareza que a filosofia resulta desta nossa vontade natural de não querermos estar enganados.

De forma simplificada podemos dizer que o nosso eu vive na tensão que existe entre o eu-actual e o eu-possível. Ainda que o eu seja uma unidade, somos obrigados a pensar que nessa unidade há uma paradoxal diferença entre o que sou efectivamente agora e o eu em direcção ao qual a nossa acção e a nossa circunstância nos encaminha (o eu-possível). O eu-actual não se considera suficiente e satisfeito em si mesmo, quer ser mais ou quer ser diferente do que é. À tensão existente entre o eu-actual e o eu-possível vamos chamar por agora vontade ou desejo.

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Documentário: “A vida examinada”

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O documentário “A vida examinada” trata dos seguintes tópicos:

  • O que é a Filosofia? Interpretação da alegoria da caverna.
  • Quais são as questões da Filosofia? Alguns exemplos.
  • Por que motivo comecei a estudar Filosofia?
  • Quem foi Sócrates? Dos seus diálogos até à condenação à morte.

Radicalidade da filosofia

Ortega y Gasset

“De onde vem – perguntar-se-á – este apetite de Universo, de integridade do mundo que é a raiz da filosofia? Simplesmente, esse apetite que parece peculiar à filosofia é a atitude nativa e espontânea da nossa mente na vida. Confusa ou claramente, ao viver vivemos voltados para um mundo em redor que sentimos ou pressentimos completo. (…)

“A missão da física é descobrir em cada facto que agora se produz o seu princípio, isto é, o facto antecedente que originou aquele. Mas este princípio tem por sua vez um princípio anterior, e assim sucessivamente, até um primeiro princípio originário. O físico renuncia a buscar este primeiro princípio do Universo, e faz muito bem. Mas repito que o homem onde cada físico vive alojado não renuncia e, de bom grado ou contra a sua vontade, a sua alma parte rumo a essa primeira e enigmática causa. É natural que seja assim. Viver, decerto, é tratar com o mundo, dirigir-se a ele, actuar nele, ocupar-se dele. Daqui que seja para o homem materialmente impossível, por uma forçosa violência psicológica, renunciar a possuir uma noção completa do mundo, uma ideia integral do universo.

(José Ortega y Gasset, O que é a filosofia?; Cotovia, Lisboa, 1994,Terceira Lição, pp. 49-50).