Sobre a amizade

(…) Admitamos que amar é querer para alguém aquilo que pensamos ser uma coisa boa, por causa desse alguém e não por causa de nós. Pôr isto em prática implica uma determinada capacidade da nossa parte. É amigo aquele que ama e é reciprocamente amado. Consideram-se amigos os que pensam estar mutuamente nestas disposições.

Colocadas estas hipóteses, é necessário que seja nosso amigo aquele que se regozija com as coisas boas e se entristece com as nossas amarguras, sem outra razão que não seja a pessoa amada. Todos nós nos alegramos quando acontece aquilo que desejamos, mas todos nos entristecemos com o contrário, de tal sorte que a dor e o prazer são sinais da vontade. Também são amigos aqueles que têm por boas e más as mesmas coisas, e por amigos e inimigos as mesmas pessoas. Daí resulta, forçosamente, querer para os amigos o que se deseja para si próprio; de modo que, são amigos aqueles que, ao quererem para si o que querem para a pessoa amada, mostram com toda a evidência que são amigos dela. Amam-se os nossos benfeitores tanto os que cuidam de pessoas que estão a nosso cargo, como os que nos prestam serviços, sejam estes importantes ou feitos com boa intenção, ou em ocasiões oportunas e tendo em vista o nosso interesse, ou os que eventualmente achamos que estariam dispostos a beneficiar-nos. E também os amigos dos nossos amigos, os que amam os que nós amamos e os que são amados pelas pessoas que nós amamos. Do mesmo modo, os que têm os mesmos inimigos que nós e odeiam os que nós odiamos, assim como aqueles que são odiados pelos mesmos que nós odiamos. Para todas estas pessoas parece haver as mesmas coisas boas que há para nós; por conseguinte, desejam para elas as mesmas coisas boas que para nós, o que, segundo a nossa definição, é próprio do amigo.

Continuar a ler