Desproporção do homem

Blaise Pascal

199-72

H. Desproporção do homem.

9. – (Ora aí está onde nos levam os conhecimentos naturais.

Se estes não são verdadeiros, não há nada de verdadeiro no homem e se o são encontra nisso um grande motivo de humilhação, forçado a rebaixar-se de uma ou de outra maneira.

Uma vez que não pode subsistir sem acreditar neles, desejo antes de entrar em maiores investigações da natureza, que ele a considere uma vez seriamente e com vagar. Que ele se observe também a si mesmo e julgue se tem alguma proporção com ela pela comparação que fará destes dois objectos).

Que o homem contemple então a natureza inteira na sua alta e plena majestade, que afaste a sua vista dos objectos baixos que o rodeiam. Que olhe para esta brilhante luz posta como uma lâmpada eterna para alumiar o universo, que a terra lhe pareça como um ponto por comparação à vasta rotação que este astro descreve, e que ele se espante de que esta vasta rotação não seja ela mesma senão um ponto muito delicado relativamente àquela que estes astros, que giram no firmamento, abraçam. Mas se a nossa vista se detém aí que a nossa imaginação vá mais além, ela cansar-se-á mais depressa de sentir do que a natureza de fornecer. Todo o mundo visível não é senão um traço imperceptível no amplo seio da natureza. Nenhuma ideia se aproxima, por mais que insuflemos as nossas concepções para lá dos espaços imagináveis, nós não criamos senão átomos por comparação à realidade das coisas. É uma esfera infinita de que o centro está em toda a parte, a circunferência em parte nenhuma. Enfim é a maior marca sensível da omnipotência de Deus que a nossa imaginação se perca neste pensamento.

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Viver entre o nada e o quase nada

A partir do texto de Pascal Procura natural de sentido para a vida, já antes aqui publicado, vou abordar perguntas como as seguintes: O tempo existe? Como nos relacionamos com o tempo? Outras perguntas surgirão sem que seja fácil sugerir um método que leve à sua resposta.

O texto indica as três dimensões do tempo que todos nós conhecemos, isto é, o passado, o presente e o futuro. Pascal indica que a nossa relação com o tempo é feita por meio de capacidades cognitivas. Ligamo-nos ao passado pela recordação, ou seja, pela memória. Ligamo-nos ao futuro pela antecipação, ou seja, pela imaginação. O texto não dá um nome à faculdade cognitiva com que nos ligamos ao presente. Por nossa conta e responsabilidade vamos chamar-lhe presentificação.

O texto defende a tese de que o presente é o único tempo que subsiste. Se o presente é o único que subsiste, então o passado e o futuro não subsistem e, em última instância, não existem. Esta tese tem reminiscências da análise do tempo feita por Agostinho de Hipona, no livro XI das Confissões. Pascal estudou bastante a obra de S. Agostinho e por certo tinha em boa conta o texto de que passo a citar esta passagem:

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Viver a vida na imaginação dos outros

Blaise Pascal

Não nos contentamos com a vida que temos no nosso próprio ser. Queremos viver na ideia dos outros uma vida imaginária e esforçamo-nos para isso por parecer. Trabalhamos incessantemente a embelezar e conservar o nosso ser imaginário e negligenciamos o verdadeiro. E se temos ou a tranquilidade ou a generosidade ou a fidelidade empenhamo-nos em fazê-lo saber-se, afim de prender estas virtudes ao nosso outro ser e desprendemo-las de nós para as juntarmos ao outro. Seríamos de bom coração poltrões para adquirir a reputação de valentes. Grande marca do nada do nosso ser é a de não estar satisfeito um sem o outro e de trocar frequentemente um pelo outro. Porque aquele que não morresse para conservar a sua honra seria infame.

(Trad. de Blaise Pascal, Œvres Complètes; Seuil, Paris, 1963,  §806-147, p. 506). 

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Procura natural de sentido para a vida


Blaise Pascal

“Jamais nos agarramos ao tempo presente. Recordamos o passado; antecipamos o futuro como muito vagaroso a vir, como que para apressar o seu fluxo, ou recordamos o passado para o parar como muito ardente, tão imprudentes que nós viajamos nos tempos que não são os nossos, e não pensamos naquele que nos pertence, e tão vãos que cuidamos daqueles que não são nada, e escapamos sem reflexão ao único que subsiste. É que o presente normalmente fere-nos. Nós escondemo-lo à nossa vista porque ele nos aflige, e se é agradável lamentamos vê-lo escapar. Tratamos de o manter para o futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão em nosso poder para um tempo a que não temos segurança alguma de chegar.

Que cada um examine os seus pensamentos. Ele os encontrará todos ocupados com o passado ou o futuro. Não pensamos quase nunca no presente, e se pensamos nele não é senão para o pôr a uma luz que o disponha para o futuro. O presente não é jamais o nosso fim.

O passado e o presente são os nossos meios; somente o futuro é nosso fim. Deste modo nós jamais vivemos, mas esperamos vir a viver, e, dispondo-nos sempre a ser felizes é inevitável que jamais o sejamos.

(Blaise Pascal, Pensamentos; fragmento 47-112; Trad. da ed. de Louis Lafuma: Blaise Pascal, Ouvres complètes; Seuil, Paris, 1963, p. 506).

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