A mulher incorpórea

Tens cinco sentidos. Isso é evidente para ti e para mim. Nem mais, nem menos. Mas na verdade temos seis sentidos. Um dos nossos sentidos funciona tão bem que podemos viver uma vida inteira sem saber que o temos. Só o descobrimos quando o perdemos ou quando alguém nos fala dele. Eu vivi cerca de vinte anos sem saber que tinha proprioceção. Só fiquei a saber que tinha esse sentido quando li O homem que confundiu a mulher com um chapéu, um livro de Oliver Sacks. A obra relata o caso verídico de Cristina, uma mulher de vinte e sete anos que perdeu a proprioceção e com ela a capacidade de saber se tinha e onde estavam os pés, os braços e a própria cara. A proprioceção é o sentido percetivo que nos dá a certeza de termos um corpo, de sabermos onde está cada uma das suas partes e de coordenar todos os nossos movimentos, incluindo os movimentos dos músculos necessários à fala e ao sorriso. Sem ele a nossa vida tal como a temos construída ruiria por completo.

                Deixo a baixo extratos do impressionante e esclarecedor texto de Oliver Sacks.

Continuar a ler

É legítimo inferir de um primeiro acontecimento (causa) um segundo acontecimento (efeito)?

David Hume

Mas para nos convencermos de que todas as leis da natureza e todas as operações dos corpos sem excepção se conhecem apenas por experiência, talvez possam bastar as seguintes reflexões. Se um objecto qualquer nos fosse apresentado e se nos fosse pedido para nos pronunciarmos acerca do efeito que dele derivará, sem consultar a observação passada, de que maneira, vos suplico eu, deve a mente proceder nesta operação? Deve inventar ou imaginar algum evento que atribui ao objecto como seu efeito; e é evidente que esta invenção deve ser inteiramente arbitrária. A mente, possivelmente, nunca pode encontrar o efeito na suposta causa através do mais rigoroso escrutínio e exame, porque o efeito é totalmente diferente da causa e, por conseguinte, jamais pode nela ser descoberto. O movimento na segunda bola de bilhar é um evento inteiramente distinto do movimento na primeira, nem coisa alguma existe numa para sugerir a mínima sombra da outra. Uma pedra ou um pedaço de metal atirado ao ar e deixado sem qualquer apoio, imediatamente cai; mas, para considerarmos o assunto a priori, existe aí alguma coisa que descobrimos nesta situação que possa produzir a ideia de um movimento descendente, mais do que ascendente, ou outro movimento qualquer, na pedra ou no metal?

David Hume, Investigação Sobre o Entendimento Humano; Trad. Artur Mourão, Ed. 70, Lisboa, 1989, Secção IV, Dúvidas Cépticas Acerca das Operações do Entendimento, p. 34.

 

Relação natural de causa e efeito

David Hume

Todos os raciocínios relativos à questão de facto parecem fundar-se na relação de causa e efeito. Só mediante esta relação podemos ir além do testemunho da nossa memória e dos nossos sentidos. Se perguntássemos a um homem porque acredita ele em alguma questão de facto  que está ausente, por exemplo, que o seu amigo está no campo ou na França, fornecer-nos-ia uma razão e esta razão seria algum outro facto, como uma carta dele recebida ou o conhecimento das suas antigas resoluções e promessas. Um homem que encontrasse um relógio ou qualquer outra máquina numa ilha deserta concluiria que noutros tempos estiveram homens nessa ilha. Todos os nossos raciocínios acerca de factos são da mesma natureza. E aqui supõe-se constantemente que existe uma conexão entre o facto presente e aquele que dele é inferido. Se nada houvesse a ligá-los, a inferência seria inteiramente precária. A audição de uma voz articulada e de discurso racional na escuridão certifica-nos da presença de alguma pessoa. Porquê? Porque são efeitos da maneira de ser e da estrutura humanas, e intimamente a elas adstritos. Se anatomizarmos todos os outros raciocínios desta natureza, veremos que se baseiam na relação de causa e efeito, e que esta relação é próxima ou remota, directa ou colateral. O calor e a luz são efeitos colaterais do fogo, e um efeito pode justamente inferir-se a partir do outro.

David Hume, Investigação Sobre o Entendimento Humano; Trad. Artur Mourão, Ed. 70, Lisboa, 1989, Secção IV, Dúvidas Cépticas Acerca das Operações do Entendimento, p.  32-33.

Princípios de conexão de ideias

David Hume

Para mim, parece-me haver apenas três princípios de conexão entre ideias, a saber, semelhança [1], contiguidade [2] no tempo e no espaço e causa ou efeito[3].

Creio que não surgirão muitas dúvidas acerca do facto de estes princípios servirem para conectar ideias. Uma pintura leva naturalmente os nossos pensamentos para o original [1]; a menção de um aposento num edifício introduz uma inquirição ou discurso a respeito dos outros[2]; e se pensarmos numa ferida, dificilmente nos abstemos de reflectir sobre a dor que se lhe segue[3].

David Hume, Investigação Sobre o Entendimento Humano; Trad. Artur Mourão, Ed. 70, Lisboa, 1989, Secção II, Da Origem das Ideias, p.  30.

 

Distinção entre “relações de ideias” e “questões de facto”

David Hume

Todos os objectos da razão ou investigação humanas podem natural­mente dividir-se em duas classes, a saber, Relações de Ideias e Questões de Facto. Do primeiro tipo são as ciências da Geometria, Álgebra e Aritmética e, em suma, toda a afirmação que é intuitiva ou demonstrati­vamente certa. Que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos qua­drados dos dois lados é uma proposição que exprime uma relação entre estas figuras. Que três vezes cinco é igual à metade de trinta expressa uma relação entre estes números. Proposições deste tipo podem descobrir-se pela simples operação do pensamento, sem dependência do que existe em alguma parte no universo. Ainda que nunca tivesse havido um círculo ou um triângulo na natureza, as verdades demonstradas por Euclides conservariam para sempre a sua certeza e evidência.

As questões de facto, que constituem os segundos objectos da razão humana, não são indagadas da mesma maneira, nem a nossa evidência da sua verdade, por maior que seja, é de natureza semelhante à prece­dente. O contrário de toda a questão de facto é ainda possível, porque jamais pode implicar uma contradição, e é concebido pela mente com a mesma facilidade e nitidez, como se fosse idêntico à realidade. Que o Sol não se há-de levantar amanhã não é uma proposição menos inteligível e não implica maior contradição do que a afirmação de que ele se levanta­rá. Por conseguinte, em vão tentaríamos demonstrar a sua falsidade.

David Hume, Investigação Sobre o Entendimento Humano; Lisboa, Edições 70, pp. 31-32.

 

Da percepção às ideias

David Hume

Mas, embora o nosso pensamento pareça possuir esta liberdade irrestrita, veremos, num exame mais pormenorizado, que se encontra realmente confinado a limites muito estreitos e que todo este poder criador da mente nada mais vem a ser do que a faculdade de compor, transpor, aumentar ou diminuir os materiais que nos são fornecidos pelos sentidos e pela experiência.. (…) Em suma, todos os materiais do pensamento são derivados da sensibilidade externa ou interna: a mistura e composição destes pertencem apenas à mente e à vontade. Ora, para me expressar em linguagem filosófica, todas as nossas ideias, ou percepções mais fracas, são cópias das nossas impressões mais intensas.

Os dois argumentos seguintes serão, espero, suficientes para provar isto. Primeiro, ao analisarmos os nossos pensamentos ou ideias, por muito compostas e sublimes que sejam, sempre descobrimos que elas se resolvem em ideias tão simples como se fossem copiadas de uma sensação ou sentimento precedente. Mesmo as ideias que, à primeira vista, parecem afastadas desta origem, descobre-se, após um escrutínio mais minucioso, serem dela derivadas. A ideia de Deus, enquanto significa um Ser infinitamente inteligente, sábio e bom, promana da reflexão sobre as operações da nossa própria mente, e eleva sem limite essas qualidades da bondade e sabedoria. Podemos prosseguir esta inquirição até ao ponto que nos agradar, onde sempre descobriremos que toda a ideia que examinamos é copiada de uma impressão similar. Aqueles que afirmarem que esta posição não é universalmente verdadeira nem sem excepção têm um só e fácil método de a refutar, apresentando essa ideia que, na sua opinião, não é derivada desta fonte. Compete-nos, pois, a nós, se havemos de manter a nossa doutrina, mostrar a impressão, ou a percepção viva que lhe corresponde.

Segundo, se acontecer que um homem, em virtude de um defeito dos órgãos, não é susceptível de qualquer espécie de sensação, vemos sempre que ele é igualmente pouco susceptível das ideias correspondentes. Um homem cego não pode formar noção das cores, e um surdo, dos sons. Restitua-se a cada um deles o sentido em que é deficiente; franqueando esta nova entrada para as suas sensações, patenteia-se também uma entrada para as ideias, e ele não encontra dificuldade alguma em conceber esses objectos. O mesmo acontece se o objecto, adequado para a excitação de alguma sensação, nunca se tiver aplicado aos órgãos. Um lapão ou um negro não têm noção do paladar do vinho. E embora haja poucos ou nenhuns exemplos de uma semelhante deficiência na mente, em que uma pessoa nunca reconheceu ou é totalmente incapaz de um sentimento ou paixão que pertence à sua espécie, no entanto, descobrimos que a mesma observação ocorre num grau menor. Um homem de maneiras brandas não pode formar uma ideia de vingança ou crueldade inveterada, nem um coração egoísta pode facilmente conceber as alturas da amizade e da generosidade. Admite-se prontamente que outros seres possam possuir muitos sentidos dos quais não temos nenhuma noção, porque as ideias deles nunca nos foram introduzidas da única maneira pela qual uma ideia pode ter acesso à mente, isto é, através da sensibilidade e da sensação efectivas.

(David Hume, Investigação Sobre o Entendimento Humano; Trad. Artur Mourão, Ed. 70, Lisboa, 1989, Secção II, Da Origem das Ideias, p. 25-26).

 

A percepção e as ideias

David Hume

Todos admitirão prontamente que existe uma diferença considerável entre as percepções da mente, quando um homem sente a dor de um calor excessivo ou o prazer de um ardor moderado, e quando ele depois traz à memória a sua sensação ou a antecipa mediante a sua imaginação. Estas faculdades podem mimar ou copiar as percepções dos sentidos, mas nunca podem inteiramente atingir a força e vivacidade do sentimento original. O máximo que delas afirmamos, mesmo quando actuam com o maior vigor, é que representam o seu objecto de uma maneira tão viva que poderíamos quase dizer que o sentimos ou vemos. Mas, a não ser que a mente esteja desarranjada pela doença ou pela loucura, elas nunca podem chegar a tal nível de vivacidade que tornem totalmente indistinguíveis as  percepções. Todas as cores da poesia, por esplêndidas que sejam, jamais podem pintar os objectos naturais de uma maneira tal que levem a descrição a ser tomada por uma paisagem real. O mais vivo pensamento é ainda inferior à mais baça sensação.

(David Hume, Investigação Sobre o Entendimento Humano; Trad. Artur Mourão, Ed. 70, Lisboa, 1989, Secção II, Da Origem das Ideias, p.  23).

Dois tipos de impressões: a percepção e a ideia

David Hume

Podemos, pois, dividir aqui todas as percepções da mente em duas classes ou tipos, que se distinguem pelos seus diferentes graus de força ou vivacidade. As menos intensas e vivas são comummente designadas Pensamentos ou Ideias. O outro tipo carece de um nome na nossa língua e em muitas outras; assim suponho, porque não havia quaisquer requisitos, a não ser filosóficos, para os classificar sob um termo ou designação geral. Usemos, pois, de um pouco de liberdade e chamemos-lhe Impressões, empregando esta palavra num sentido um tanto diverso do habitual. Pelo termo impressão significo todas as percepções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou queremos. E as impressões distinguem-se das ideias, que são as impressões menos intensas, das quais somos conscientes quando reflectimos sobre qualquer das sensações ou movimentos acima mencionados.

(David Hume, Investigação Sobre o Entendimento Humano; Trad. Artur Mourão, Ed. 70,  Lisboa, 1989, Secção II, Da Origem das Ideias, p. 24).

 

Argumentos cartesianos da loucura e do sonho

René Descartes

[4] Mas ainda que os sentidos nos enganem algumas vezes sobre coisas pequenas e afastadas, há todavia muitas outras de que não podemos absolutamente duvidar, embora as recebamos por eles: como, por exemplo, que estou aqui, sentado junto à lareira, vestido com um roupão de Inverno, que toco este papel com as mãos, e outros factos semelhantes. E ainda, qual a razão por que se poderia negar que estas próprias mãos e todo este meu corpo são meus? A não ser que, porventura, me compare não sei com que loucos, cujos miolos estão tão abalados por vapores rebeldes de bílis negra que asseveram invariavelmente serem, ou reis, quando são paupérrimos, ou estarem vestidos de oiro e púrpura, quando estão nus, ou que têm uma cabeça de barro, ou que são cabaças, ou que são feitos de vidro. Mas trata-se de pessoas que perderam a razão e eu próprio não pareceria menos insensato se lhes seguisse o exemplo.

[5] Ora muito bem, como se eu não fosse um homem que costuma dormir de noite e consentir em sonhos as mes­mas coisas, ou também, algumas vezes, outras menos verosí­meis, que aqueles alienados quando estão despertos! Com efeito, quantas vezes me acontece que, durante o repouso nocturno, me deixo persuadir de coisas tão habituais como que estou aqui, com o roupão vestido, sentado à lareira, quando, todavia, estou estendido na cama e despido! Mas agora, observo este papel seguramente com os olhos abertos, esta cabeça que movo não está a dormir, voluntária e cons­cientemente estendo esta mão e sinto-a: o que acontece quando se dorme não parece tão distinto. Como se não me recordasse de já ter sido enganado em sonhos por pensa­mentos semelhantes! Por isso, se reflicto mais atentamente, vejo com clareza que vigília e sono nunca se podem dis­tinguir por sinais seguros, o que me espanta — e é tal este meu espanto que quase me confirma na opinião de que durmo.

[6] Vamos então — sonhemos.

Descartes, Meditações sobre a filosofia primeira; Trad. corrigida de Gustavo Fraga, Almedina, Coimbra, 1992. Pp. 105-115.

 

Introdução à dúvida cartesiana

MEDITAÇÕES SOBRE A FILOSOFIA PRIMEIRA EM QUE SÃO DEMONSTRADAS A EXISTÊNCIA DE DEUS E A DISTINÇÃO DA ALMA E DO CORPO

PRIMEIRA MEDITAÇÃO

 

Das coisas que se podem pôr em dúvida

René Descartes

[1] Notei, há alguns anos já, que, tendo recebido desde a mais tenra idade tantas coisas falsas por verdadeiras, e sendo tão duvidoso tudo o que depois sobre elas fundei, tinha de deitar abaixo tudo, inteiramente, por uma vez na minha vida, e começar, de novo, desde os primeiros fun­damentos, se quisesse estabelecer algo de seguro e dura­doiro nas ciências. Mas esta pareceu-me uma obra ingente, pelo que esperei uma idade tão madura que não se lhe seguisse outra em que fosse mais apto para dominar as ciên­cias. Por isso hesitei tanto tempo que, a partir de agora, cairia em culpa se consumisse em deliberações o tempo que me resta para agir. Então, hoje, eu que oportunamente libertei o espírito de todos os cuidados e me procurei um ócio seguro num retiro solitário, vou dedicar-me, por fim, com seriedade e livremente, a destruir em geral as minhas opiniões.

[2] Para isso não será necessário mostrar que todas são falsas, o que possivelmente eu nunca poderia conseguir. Mas, porque a razão me persuade logo que não devo menos cuidadosamente coibir-me de dar o meu assentimento às coisas que não são plenamente certas e indubitáveis do que às abertamente falsas, para rejeitá-las todas basta que se me depare em uma delas qualquer razão de dúvida. Para isso, não tenho de percorrê-las cada uma em particular, traba­lho que seria sem fim: porque uma vez minados os funda­mentos, cai por si tudo o que está sobre eles edificado, ata­carei imediatamente aqueles princípios em que se apoiava tudo o que anteriormente acreditei.

[3] Sem dúvida, tudo aquilo que até ao presente admiti como maximamente verdadeiro foi dos sentidos ou por meio dos sentidos que o recebi. Porém, descobri que eles por vezes nos enganam, e é de prudência nunca confiar total­mente naqueles que, mesmo uma só vez, nos enganaram.

Descartes, Meditações sobre a filosofia primeira; Trad. corrigida de Gustavo Fraga, Almedina, Coimbra, 1992. Pp. 105-115