A lógica ou a arte de pensar

Antoine Arnauld

Pierre Nicole

Não há nada de mais estimável do que o bom senso e a justiça do espírito no discernimento do verdadeiro e do falso. Todas as outras qualidades do espírito têm usos limitados; mas a exatidão da razão é geralmente útil em todas as partes e em todos os empregos da vida. Não é apenas nas ciências que é difícil distinguir a verdade do erro, mas também na maior parte dos assuntos de que os homens falam e dos negócios de que tratam. Há para quase tudo vias diferentes, umas verdadeiras, as outras falsas e está aí a razão de fazer escolhas. Os que escolhem bem são os que têm o espírito justo; os que tomam mau partido são aqueles que têm o espírito falso. Está aí a primeira e a mais importante distinção que se pode dar entre as qualidades do espírito dos homens.

Assim a principal aplicação que se deve ter será a de formar o seu juízo e de o tornar tão exato quanto ele o possa ser e é a isso que deverá tender a maior parte dos nossos estudos. Servimo-nos da razão como de um instrumento para adquirir as ciências e deveríamos servir-nos pelo contrário das ciências como de um instrumento para aperfeiçoar a razão; sendo a justiça do espírito infinitamente mais considerável do que todos os conhecimentos especulativos aos quais se pode chegar por meio das ciências mais verdadeiras e mais sólidas. O que deve levar as pessoas ajuizadas a não se empenharem aí senão em tanto quanto podem servir este fim, a fazer apenas a experiência e não o emprego das forças do seu espírito.

(Trad. de Arnauld, Antoine and Nicole, Pierre, La logique ou l’art de penser contenant, outre les règles communes, plusieurs observations nouvelles, propres à former le jugement; 1970. p. 53).

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Considerações sobre a linguagem


Ludwig Wittgenstein

“«Quando eles (os meus pais) diziam o nome de um objecto e, em seguida, se moviam na sua direcção eu observava-os e compreendia que o objecto era designado pelo som que eles faziam, quando o queriam mostrar ostensivamente. A sua intenção era revelada pelos movimentos do corpo, como se estes fossem a linguagem natural de todos os povos: a expressão facial, o olhar, os movimentos das outras partes do corpo e o tom de voz, que exprime o estado de espírito ao desejar, ter, rejeitar ou evitar uma coisa qualquer. Assim, ao ouvir palavras repetidamente empregues nos seus devidos lugares em diversas frases, acabei por compreender que objectos é que estas palavras designavam. E depois de ter habituado a minha boca a articular estes sons, usava-os para exprimir os meus próprios desejos.» (Agostinho, Confissões, I, 8).

“Nestas palavras encontramos, parece-me, uma certa imagem da essência da linguagem humana, nomeadamente a seguinte: as palavras da linguagem designam objectos. ─ As frases são concatenações de tais designações. — Nesta imagem da linguagem encontramos também as raízes da seguinte ideia: cada palavra tem uma denotação. Esta denotação está em relação com a palavra. Ë o objecto que a palavra representa.

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