O homem-massa exige progresso tecnológico

Ortega y Gasset

“(…) hoje muito poucos homens duvidam que os automóveis serão dentro de cinco anos mais confortáveis e mais baratos que os de agora. Acredita-se nisto como no próximo nascer do sol. O símile é formal. Porque, de facto, o homem vulgar, ao encontrar-se com esse mundo técnica e socialmente tão perfeito, acredita que o terá produzido a natureza, e não pensa nunca nos esforços geniais dos indivíduos excelentes que supõe a sua criação. Ainda menos admitirá a ideia de que todas estas facilidades decorrem do apoio de certas virtudes difíceis dos homens, a menor falha das quais volatilizaria rapidamente a magnífica construção.

            Isto leva-nos a apontar no diagrama psicológico do homem-massa actual dois primeiros traços: a livre expansão dos seus desejos vitais −  portanto, da sua pessoa – e a radical ingratidão em relação a tudo o que terá tornado possível a facilidade da sua existência. Um e outro traço compõem a conhecida psicologia do menino mimado.

            (José Ortega y Gasset,  A Rebelião das Massas; Trad. de La Rebelión de las Masas; Ed. Optima, Barcelona, 1997. p. 113).

Nota: a primeira edição deste texto é de 1930, no entanto a tese defendida nesta passagem é reforçada a cada ano que passa.