Que os meus juízos sejam livres, mas não desarrazoados

Francisco Sanches

Quero-me com aqueles que, não se tendo obrigado a jurar nas palavras de um mestre, examinam com os recursos próprios as questões, levados pelos sentidos e pela razão. Por isso tu, quem quer que sejas, que tens a mesma condição e temperamento que eu, e que no teu íntimo tens muitíssimas vezes duvidado da natureza das coisas, duvida agora comigo: exercitemos juntos o nosso engenho. Que os meus juízos sejam livres, mas não desarrazoados. O mesmo concedo e peço para ti.

Francisco Sanches, Que nada se sabe; Vega, Lisboa, 1991. p. 58.

Historicidade e autonomia da Filosofia

Aparentemente há uma contradição quando se defende em simultâneo a historicidade e a autonomia da filosofia. De algum modo a historicidade da filosofia implica que a sua tarefa é influenciada pelo seu passado histórico, pela sua tradição, pelos textos de grandes pensadores e pelas correntes que sustentaram um núcleo de teses comuns. A autonomia da filosofia implica que o pensador não seja dependente, nem influenciado pela história da filosofia ou por uma corrente filosófica. Assim sendo, tudo leva a crer que se a filosofia é histórica, não é autónoma; se é autónoma, não é histórica.

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A filosofia e a sua radicalidade

Raízes (Joan Garrigosa)

A filosofia é radical logo na sua origem porque resulta do nosso eu, ou seja, do âmago da nossa identidade. O nosso eu, ainda que uno, vive numa tensão entre aquilo que é e aquilo que gostaria de ser. Ora nenhum de nós gostaria de estar enganado nas coisas que lhe dizem respeito. O nosso eu prefere saber a verdade sobre o que se está a passar consigo mesmo, a estar enganado. Seguidamente, poderemos ver com maior clareza que a filosofia resulta desta nossa vontade natural de não querermos estar enganados.

De forma simplificada podemos dizer que o nosso eu vive na tensão que existe entre o eu-actual e o eu-possível. Ainda que o eu seja uma unidade, somos obrigados a pensar que nessa unidade há uma paradoxal diferença entre o que sou efectivamente agora e o eu em direcção ao qual a nossa acção e a nossa circunstância nos encaminha (o eu-possível). O eu-actual não se considera suficiente e satisfeito em si mesmo, quer ser mais ou quer ser diferente do que é. À tensão existente entre o eu-actual e o eu-possível vamos chamar por agora vontade ou desejo.

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Documentário: “A vida examinada”

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O documentário “A vida examinada” trata dos seguintes tópicos:

  • O que é a Filosofia? Interpretação da alegoria da caverna.
  • Quais são as questões da Filosofia? Alguns exemplos.
  • Por que motivo comecei a estudar Filosofia?
  • Quem foi Sócrates? Dos seus diálogos até à condenação à morte.

Pensar em diálogo com a tradição filosófica

Ágora da antiga Atenas

Ainda que o filósofo tenda a um pensamento pessoal, seria ilusório crer que o poderia levar a termo sem a tradi­ção. Como filósofo sou uma pessoa, um eu, e o meu filosofar só é legítimo sendo o meu filosofar. Toda a pessoa, porém, se encontra inserida numa história que não é pessoal, que o indivíduo mesmo não fez. Trata-se de uma in­serção inevitável. Não posso, pois, começar a pensar do ponto zero, porque o que penso já foi pensado, e em tal pensamento fui escolhido. Sou levado pelo pensamento da tradição, pelo menos porque falo a sua linguagem e me encontro imbuído dos pensamentos encarnados nesta linguagem. Pensar sem linguagem é impossível; não menos impossível é pensar sem tradição.

Isto não quer dizer que o filósofo precise de abandonar a pretensão de pensar pessoalmente. De maneira nenhuma. Ainda que levado pela história do pensamento, o filósofo é chamado a despertá-la para nova vida […].

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Historicidade das ciências

Os segredos da natureza estão ocultos; ainda que eles actuem sempre sobre nós, não descobrimos os seus efeitos: o tempo revela-os de idade em idade, e ainda que sempre igual nela mesma, ela não é sempre igualmente conhecida.

As experiências que nos dão inteligibilidade multiplicam-se continuamente; e, como elas são os únicos princípios da física, as consequências multiplicam-se proporcionalmente.

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Radicalidade da filosofia

Ortega y Gasset

“De onde vem – perguntar-se-á – este apetite de Universo, de integridade do mundo que é a raiz da filosofia? Simplesmente, esse apetite que parece peculiar à filosofia é a atitude nativa e espontânea da nossa mente na vida. Confusa ou claramente, ao viver vivemos voltados para um mundo em redor que sentimos ou pressentimos completo. (…)

“A missão da física é descobrir em cada facto que agora se produz o seu princípio, isto é, o facto antecedente que originou aquele. Mas este princípio tem por sua vez um princípio anterior, e assim sucessivamente, até um primeiro princípio originário. O físico renuncia a buscar este primeiro princípio do Universo, e faz muito bem. Mas repito que o homem onde cada físico vive alojado não renuncia e, de bom grado ou contra a sua vontade, a sua alma parte rumo a essa primeira e enigmática causa. É natural que seja assim. Viver, decerto, é tratar com o mundo, dirigir-se a ele, actuar nele, ocupar-se dele. Daqui que seja para o homem materialmente impossível, por uma forçosa violência psicológica, renunciar a possuir uma noção completa do mundo, uma ideia integral do universo.

(José Ortega y Gasset, O que é a filosofia?; Cotovia, Lisboa, 1994,Terceira Lição, pp. 49-50).

Universalidade da Filosofia

Ortega y Gasset

“… todas as ciências particulares começam por demarcar um pedaço do Universo, por limitar o seu problema, que por ser limitado deixa em parte de ser problema. Em outras palavras: o físico e o matemático conhecem de antemão a extensão e os atributos essenciais do seu objecto; portanto, começam não com um problema, mas com algo que dão ou tomam como já sabido. Mas o Universo em cuja pesquisa o filósofo parte audaz como um argonauta, não se sabe o que é. Universo é o vocábulo enorme e monolítico que como uma vasta e vaga gesticulação oculta mais do que enuncia este conceito rigoroso: tudo quanto há. Isso é, para já, o Universo.

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Princípio da autonomia filosófica

Ortega y Gasset

[A filosofia] impõe ao seu pensamento o que chamo imperativo de autonomia. Significa este princípio metó­dico a renúncia a apoiar-se em nada anterior à própria filosofia que se vai fazendo, o compromisso de não partir de verdades supostas. A filosofia é uma ciência sem suposições. Entendo por tal um sistema de verdades que se construíram sem admitir como fundamento dele nenhuma verdade que se considera provada fora desse sistema. Não há, pois, uma admissão filosófica que o filósofo não tenha que forjar com os seus próprios meios. É, pois, a filosofia a lei intelectual de si própria, é autónoma. A isto cha­mo princípio de autonomia (…).”

José Ortega y Gasset, O que é a filosofia?; Trad. José Bento, Cotovia, Lisboa, 1999. p. 76.

Ideias bárbaras e civilizadas

Ideias bárbaras

O texto de Ortega y Gasset, anteriormente citado (A barbárie das ideias fáceis), sustenta-se na distinção entre as ideias civilizadas e as ideias bárbaras. Parte desta distinção é feita pela contraposição entre o “antes” e o “hoje”. A ideia civilizada teria lugar no “antes” e a bárbara no “hoje”.

Antes a vida e a acção das pessoas seria regulada por um respeito e uma obediência a crenças (religiosas ou não), a costumes e hábitos mentais comuns às populações. O homem comum não se sentia preparado para ter ideias ou teorizar. Por isso, aceitava as normas comuns e as decisões políticas. Podia criticar essas normas, mas como não era capaz de fazer melhor reconhecia que as tinha de aceitar. Dialogava com o poder sem impor as suas opiniões.

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