Considerações sobre a inimizade (La Rochefoucauld)

La Rochefoucauld

(82) A reconciliação com os nossos inimigos não é senão um desejo de tornar a nossa condição melhor, uma lassidão da guerra, e um receio de qualquer mau acontecimento.

 (114) Ninguém se pode consolar de ser enganado pelos seus inimigos, e traído pelos seus amigos; e fica-se frequentemente satisfeito de o ser por si mesmo.

 (397) Nós não temos a coragem de dizer em geral que não temos nenhum defeito, e que os nossos inimigos de todo não têm boas qualidades; mas ao pormenor não estamos muito distantes de o acreditarmos.

 (458) Os nossos inimigos aproximam-se mais da verdade nos juízos que fazem de nós do que nós próprios nos aproximamos.

 (463) Há frequentemente mais orgulho do que bondade em lamentar as infelicidades dos nossos inimigos; é para lhes fazer sentir que somos superiores a eles que nós lhes damos sinais de compaixão.

 (4 Máximas suprimidas) A ruína do próximo agrada aos amigos e aos inimigos.

 (La Rochefoulcauld, Réflexions ou sentences et maximes morales; Le livre de poche, Classique, Librairie Génerale Française, 1991. [Trad.: Wilson Rodrigues]).

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Manifesto ‘Ética global para a economia’

por ANSELMO BORGES 09 Abril 2011

Publicado no jornal www.dn.pt

Embora o teólogo Hans Küng seja conhecido pelos media e pelo grande público, em primeiro lugar, por causa dos diferendos com o Vaticano, julgo que o seu nome ficará sobretudo ligado ao diálogo inter-religioso, ao Parlamento das Religiões Mundiais, à “Declaração para uma Ética Mundial”, à Fundação Weltethos, a que preside.

Foi precisamente por iniciativa da Fundação Welthos e em ligação com a “Declaração para uma Ética Mundial”, do Parlamento das Religiões Mundiais, em Chicago, em 1993, que, no quadro de uma economia ecológico-social de mercado, surgiu o Manifesto “Global Economic Ethic”, assinado por figuras relevantes da Política, das Igrejas, das Universidades, da Banca, e tornado público em 2009, em Nova Iorque e em Basileia.

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Moralidade da abnegação

John Stuart Mill, ilustração de Ricardo Gaspar

Entretanto, que os utilitaristas não cessem de reclamar a moralidade da abnegação como património que lhes pertence por tão legítimo direito como ao estóico ou ao transcendentalista. A moralidade utilitarista reconhece, de facto, nos seres humanos o poder de sacrificarem o seu maior bem em prol do bem dos outros. Apenas recusa admitir que o sacrifício é, em si, um bem. A moralidade utilitarista considera desperdiçado qualquer sacrifício que não aumente, ou tenda a aumentar, a quantidade total de felicidade. A única auto-renúncia que aplaude é a dedicação à felicidade, ou a alguns dos meios da felicidade, dos outros; quer da humanidade tomada colectivamente, quer de indivíduos (de acordo com os limites impostos pelos interesses colectivos da humanidade).

(John Stuart Mill, Utilitarismo; Trad. F. J. Azevedo Gonçalves, Gradiva, Lisboa, 2005, p. 63).

Fontes de insatisfação do ânimo: indolência, excitamento doentio, egoísmo e ausência de cultivo

John Stuart Mill

Apenas aqueles para quem a indolência se tornou um vício não desejam excitamento após um intervalo de repouso; apenas aqueles em quem a necessidade de excitamento é uma doença sentem ser aborrecida e insípida a tranquilidade que sucede ao excitamento, em vez de agradável na proporção directa do excitamento que a precedeu. Quando pessoas razoavelmente afortunadas não encontram na vida satisfação suficiente para torná-la valiosa aos seus olhos, a causa é geralmente não se importarem com ninguém para lá de si próprios. Para aqueles que não têm afectos privados ou públicos, os excitamentos da vida são muito breves, e em qualquer caso perdem valor com a aproximação da altura em que todos os interesses egoístas serão exterminados pela morte, enquanto aqueles que deixam atrás de si objectos de afecto pessoal, e especialmente aqueles que cultivaram também um sentimento fraterno pelos interesses colectivos da humanidade, mantêm um interesse na vida tão enérgico na véspera da morte como no vigor e saúde juvenis. A seguir ao egoísmo, a causa principal que torna a vida insatisfatória é a falta de cultivação do espírito. Um espírito cultivado – e não estou a pensar no de um filósofo, mas em qualquer um para o qual as fontes do conhecimento tenham sido abertas, e que tenha sido minimamente ensinado a exercer as suas faculdades – encontra fontes de inexaurível interesse em tudo quanto o rodeia; nos objectos da natureza, nos feitos da arte, nas imagens da poesia, nos incidentes da história, nos costumes da humani­dade, do passado e do presente, e nas suas perspectivas futuras. É de facto possível tornarmo-nos indiferentes a tudo isto, e isso mesmo sem termos exaurido uma milionésima parte do todo; mas apenas quando não tivemos desde o início qualquer interesse moral ou humano nestas coisas, tendo procurado nelas apenas a satisfação da curiosidade.

(John Stuart Mill, Utilitarismo; Trad. F. J. Azevedo Gonçalves, Gradiva, Lisboa, 2005, pp. 59-60).

Que os meus juízos sejam livres, mas não desarrazoados

Francisco Sanches

Quero-me com aqueles que, não se tendo obrigado a jurar nas palavras de um mestre, examinam com os recursos próprios as questões, levados pelos sentidos e pela razão. Por isso tu, quem quer que sejas, que tens a mesma condição e temperamento que eu, e que no teu íntimo tens muitíssimas vezes duvidado da natureza das coisas, duvida agora comigo: exercitemos juntos o nosso engenho. Que os meus juízos sejam livres, mas não desarrazoados. O mesmo concedo e peço para ti.

Francisco Sanches, Que nada se sabe; Vega, Lisboa, 1991. p. 58.

O medo é a origem da religião e da filosofia?

Ninguém diria que a origem da fotografia, das escolas ou dos desportos é o medo. Pelo menos isso não se afigura claro à partida. O medo é certamente a origem das construções, das medidas de segurança e dos exércitos, com todas armas e estratégias de que se servem. O medo das tempestades talvez leve os homens a procurar lugares seguros. O medo dos relâmpagos leva as comunidades a instalar pára-raios em lugares altos como, por exemplo, nas torres das Igrejas. No entanto, não é nada claro que o medo seja a causa da invenção de deuses ou das religiões. Se isso for verdade tem de ser melhor explicado do que aqui.

Historicidade e autonomia da Filosofia

Aparentemente há uma contradição quando se defende em simultâneo a historicidade e a autonomia da filosofia. De algum modo a historicidade da filosofia implica que a sua tarefa é influenciada pelo seu passado histórico, pela sua tradição, pelos textos de grandes pensadores e pelas correntes que sustentaram um núcleo de teses comuns. A autonomia da filosofia implica que o pensador não seja dependente, nem influenciado pela história da filosofia ou por uma corrente filosófica. Assim sendo, tudo leva a crer que se a filosofia é histórica, não é autónoma; se é autónoma, não é histórica.

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Valor de uso e valor de troca

Adam Smith (1723-1790)

Importa notar que a palavra VALOR tem dois significados diferentes: umas vezes expressa a utilidade de um objeto em particular, e outras o poder de compra de outros bens que a posse desse objeto comporta. O primeiro pode ser chamado “valor de uso;” o outro, “valor de troca”. As coisas que têm o maior valor de uso têm frequentemente pouco ou nenhum valor de troca; pelo contrário, as que têm o maior valor de troca têm frequentemente pouco ou nenhum valor de uso. Nada é mais útil do que a água: mas dificilmente comprará alguma coisa; dificilmente alguma coisa pode ser obtida em troca dela. Um diamante, pelo contrário, dificilmente tem algum valor de uso; mas uma quantidade muito grande de outros bens pode frequentemente ser obtida em troca dele.

(Traduzido por Wilson Rodrigues de Adam Smith, The Wealth of Nations; Barnes & Noble, New York, 2004, Book 1, Ch. IV, p. 25).

 

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Prevenção do juízo precipitado e orgulhoso (Utopia)

Thomas More (1478-1535)

Entre os princípios regulamentares do Senado, merece assinalar-se o seguinte: é proibido discutir uma proposta no próprio dia em que a apresentam, sendo a discussão marcada para a sessão seguinte.

Ninguém, deste modo, ali se encontra na contingência de debitar de ânimo leve as primeiras coisas que lhe vêm à cabeça, obstinando-se em seguida na sua opinião em detrimento do bem comum; pois não acontece tantas vezes recusar-se por orgulho perante a vergonha de uma retratação e a confissão do erro irreflectido? Sacrifica-se nestes casos o interesse público ao amor-próprio.

(Tomás Morus [Thomas More], Utopia; Trad. José Marinho, Guimarães Editores, Lisboa, 1992, Livro II, 2 Dos Magistrados, p. 79).

A filosofia e a sua radicalidade

Raízes (Joan Garrigosa)

A filosofia é radical logo na sua origem porque resulta do nosso eu, ou seja, do âmago da nossa identidade. O nosso eu, ainda que uno, vive numa tensão entre aquilo que é e aquilo que gostaria de ser. Ora nenhum de nós gostaria de estar enganado nas coisas que lhe dizem respeito. O nosso eu prefere saber a verdade sobre o que se está a passar consigo mesmo, a estar enganado. Seguidamente, poderemos ver com maior clareza que a filosofia resulta desta nossa vontade natural de não querermos estar enganados.

De forma simplificada podemos dizer que o nosso eu vive na tensão que existe entre o eu-actual e o eu-possível. Ainda que o eu seja uma unidade, somos obrigados a pensar que nessa unidade há uma paradoxal diferença entre o que sou efectivamente agora e o eu em direcção ao qual a nossa acção e a nossa circunstância nos encaminha (o eu-possível). O eu-actual não se considera suficiente e satisfeito em si mesmo, quer ser mais ou quer ser diferente do que é. À tensão existente entre o eu-actual e o eu-possível vamos chamar por agora vontade ou desejo.

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