Manifesto ‘Ética global para a economia’

por ANSELMO BORGES 09 Abril 2011

Publicado no jornal www.dn.pt

Embora o teólogo Hans Küng seja conhecido pelos media e pelo grande público, em primeiro lugar, por causa dos diferendos com o Vaticano, julgo que o seu nome ficará sobretudo ligado ao diálogo inter-religioso, ao Parlamento das Religiões Mundiais, à “Declaração para uma Ética Mundial”, à Fundação Weltethos, a que preside.

Foi precisamente por iniciativa da Fundação Welthos e em ligação com a “Declaração para uma Ética Mundial”, do Parlamento das Religiões Mundiais, em Chicago, em 1993, que, no quadro de uma economia ecológico-social de mercado, surgiu o Manifesto “Global Economic Ethic”, assinado por figuras relevantes da Política, das Igrejas, das Universidades, da Banca, e tornado público em 2009, em Nova Iorque e em Basileia.

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Doença holandesa: efeitos socioeconómicos da abundância de recursos naturais


Thomas L. Friedman

Os economistas profissionais há muito que destacaram que a abundância de recursos naturais pode ser má para a política e para a economia de um país. Este fenómeno foi amplamente diagnosticado como a “doença holandesa” ou a “praga dos recursos”. A doença holandesa refere-se ao processo de desindustrialização que pode resultar de uma descoberta inesperada de recursos naturais. O termo foi criado na Holanda no início dos anos 60, depois de os holandeses terem descoberto enormes jazidas de gás natural no Mar do Norte. O que acontece num país com a doença holandesa é o seguinte: primeiro o valor da moeda aumenta, graças ao súbito afluxo de capital proveniente do petróleo, ouro, gás, diamantes ou qualquer outra descoberta de recursos naturais. A moeda forte aumenta o preço dos produtos da nação para os compradores estrangeiros, tornando as exportações industriais do país muito pouco competitivas e as importações muito apetecidas para os seus cidadãos. Estes, dotados de elevado poder de compra, começam a comprar produtos importados mais baratos, sem restrições; o sector produtivo nacional é aniquilado e de imediato dá-se uma desindustrialização.
A “praga dos recursos” pode ser utilizada para o mesmo fenómeno económico, assim como para a forma como a dependência dos recursos naturais pode alterar as prioridades políticas, de investimento e educativas de um país, de modo a que tudo gire em torno de quem controla estes recursos, quem obtém rendimento deles e o montante desse mesmo rendimento. Muito frequentemente, nos Estados petrolíferos, os seus cidadãos desenvolvem uma noção distorcida sobre o que é o desenvolvimento. De forma geral concluem que o seu país é pobre e que os líderes, ou alguns outros grupos, são ricos – não porque o país tenha fracassado na promoção da educação, da inovação, da aplicação da lei e do empreendedorismo, mas apenas porque alguém está a roubar o dinheiro do petróleo e a privar a população do que lhe é devido. Muitas vezes os cidadãos estão certos. Alguém está a roubar. Mas começam a pensar que, para se tornarem prósperos, tudo o que têm de fazer é travar os que estão a roubar – não construir uma sociedade, pedra sobre pedra, com base numa melhor educação, aplicação da lei, inovação e empreendedorismo.

(Thomas L. Friedman, Quente, plano e cheio. Porque precisamos de uma revolução verde; Trad. Carla Pedro, Actual editora, Lisboa, 2008).