A mulher incorpórea

Tens cinco sentidos. Isso é evidente para ti e para mim. Nem mais, nem menos. Mas na verdade temos seis sentidos. Um dos nossos sentidos funciona tão bem que podemos viver uma vida inteira sem saber que o temos. Só o descobrimos quando o perdemos ou quando alguém nos fala dele. Eu vivi cerca de vinte anos sem saber que tinha proprioceção. Só fiquei a saber que tinha esse sentido quando li O homem que confundiu a mulher com um chapéu, um livro de Oliver Sacks. A obra relata o caso verídico de Cristina, uma mulher de vinte e sete anos que perdeu a proprioceção e com ela a capacidade de saber se tinha e onde estavam os pés, os braços e a própria cara. A proprioceção é o sentido percetivo que nos dá a certeza de termos um corpo, de sabermos onde está cada uma das suas partes e de coordenar todos os nossos movimentos, incluindo os movimentos dos músculos necessários à fala e ao sorriso. Sem ele a nossa vida tal como a temos construída ruiria por completo.

                Deixo a baixo extratos do impressionante e esclarecedor texto de Oliver Sacks.

Aquilo que é mais importante para nós esconde-se, por vezes, sob uma capa de simplicidade e familiaridade. Somos capazes de nunca reparar em algo só porque o estamos sem­pre a ver. Ninguém pensa nas verdadeiras fundações das suas perguntas.

Wittgenstein

Oliver Sacks

O que Wittgenstein aqui afirma acerca da epistemologia pode-se aplicar a aspetos da fisiologia e da psicologia — especialmente no que se refere àquilo que Sherrington cha­mou «o nosso sentido secreto, o nosso sexto sentido», este fluxo sensorial contínuo mas inconsciente que provém das zonas móveis do nosso corpo (músculos, tendões, articula­ções) e que monitoriza e ajusta a posição, o tonus e movi­mento de forma impercetível para nós porque é automática e inconsciente. Os nossos outros sentidos — os cinco senti­dos — estão a descoberto e são óbvios, mas este — o nosso sentido escondido — teve de ser descoberto e foi-o por Sherrington por volta de 1890. Chamou-lhe «proprioceção» para o distinguir da «exteroceção» e da «interoceção», e tam­bém porque é indispensável para nos sentirmos nós próprios. É unicamente através da proprioceção que sentimos o nosso corpo como nossa propriedade, como algo que nos é pró­prio, como sendo nosso (Sherrington 1906, 1940).

Haverá algo mais importante para nós, a um nível ele­mentar, do que o controle, a mestria e o domínio do nosso ser físico? E no entanto, essa sensação é tão familiar para nós, tão automática que nem sequer pensamos nela.

(…)

Cristina era uma jovem de 27 anos. Gostava de hóquei, de montar a cavalo, tinha confiança em si própria, era sau­dável de corpo e espírito. Tinha dois filhos pequenos e tra­balhava em casa como programadora de computadores. Era inteligente, culta, gostava de ballet e dos poetas românticos (mas penso que não gostaria de Wittgenstein), tinha uma vida intensa e ativa — praticamente nunca tinha estado doente. Para sua surpresa, depois de um ataque de dores abdominais, descobriu que tinha pedras na vesícula biliar e os médicos aconselharam uma operação.

Deu entrada no hospital três dias antes da data prevista para a operação e foi posta a antibióticos, o que era unica­mente uma precaução de rotina. (…)

Na véspera da operação Cristina, que não era dada a manias ou sonhos, teve um sonho muito nítido que a per­turbou bastante. No seu sonho ela tinha falta de equilíbrio, quase não sentia o chão que pisava, quase não sentia aquilo que segurava, sentia as mãos a abanar para a frente e para trás, deixava cair tudo o que pegava.

Ficou perturbada. («Nunca tive um sonho assim, não me consigo esquecer dele.») Tão perturbada que decidimos pedir uma opinião ao psiquiatra. «Ansiedade pré-operatória» foi a opinião que deu. «Perfeitamente natural. Acontece muitas vezes.»

Só que, mais tarde, o sonho tornou-se realidade. Cristina sentia-se desequilibrada quando se punha em pé, fazia movi­mentos estranhamente flutuantes e deixava cair coisas das mãos.

(…)

Mas no dia da operação ela tinha piorado. Era-lhe impos­sível manter-se de pé a não ser que olhasse para os pés, não conseguia segurar nada nas mãos que «flutuavam» a não ser que olhasse para elas. Quando tentava agarrar qualquer coisa, ou quando tentava comer, as mãos falhavam o alvo como se lhes faltasse um controle ou coordenação específica. Já quase não se conseguia sentar direita, o corpo «descaía». O rosto parecia estranho porque não tinha expressão, o maxi­lar caía-lhe e até a postura vocal tinha desaparecido.

«Aconteceu algo de horrível», queixou-se com uma voz desentoada, quase fantasmagórica. «Não sinto o corpo. Sinto-me esquisita, como se não tivesse corpo.»

Era estranho e confuso ouvir isto, «sem corpo»? Estaria louca? E o seu estado físico? O colapso total do tonus e da postura muscular; o vaguear das mãos do qual ela parecia não ter consciência; os gestos desproporcionados e sem direção, como se não recebesse informações periféricas, como se o controle da tonicidade e do movimento se tivesse, catas­troficamente, avariado.

(…)

Pare­cia haver um deficit propriocetivo muito profundo, quase total, extensivo a todo o corpo.

(…)

Mandámos chamar de urgência, não o psiquiatra mas o fisiologista, especialista em medicina física.

Ele veio rapidamente em resposta à urgência da chamada. Ao ver Cristina abriram-se-lhe os olhos de espanto. Examinou-a rápida e cuidadosamente, fez-lhe testes elétricos ao funcionamento dos nervos e músculos. «Isto é extraor­dinário. Nunca tinha visto nada assim», admirou-se, «nem nunca li nada acerca disto. Você tem razão, ela perdeu toda a proprioceção. Não tem sensibilidade em nenhum músculo, tendão ou articulação. Há também uma pequena perda de outras modalidades sensoriais — ao toque leve, à tempera­tura e à dor — há uma ligeira complicação ao nível das fibras motoras, mas a lesão verifica-se sobretudo no que diz respeito ao sentido da posição — a proprioceção.»

(…)

À tarde Cristina estava pior. Só conseguia estar deitada, imóvel e apática. Até a respiração era superficial. O seu estado era grave — pensámos pô-la a oxigénio — e enigmático.

(…)

Expliquei-lhe que a consciência do corpo nos é dada por três coisas: a visão, os órgãos de equilíbrio (o sistema vesti­bular) e a proprioceção. Era esta última que ela tinha per­dido. Em circunstâncias normais, trabalham todos em con­junto. Se um falha os outros compensam-no ou substituem-no — até certo ponto.

(…)

«Então o que tenho de fazer», disse lentamente, «é usar a visão, usar os olhos em todas as situações em que antes usava — como é que se chama? — a proprioceção. Já tinha reparado que às vezes «perdia» os braços. Penso que estão num sítio e estão noutro. Essa «proprioceção» faz de olhos do corpo, é a forma como o corpo se vê a si próprio. Quando se deixa de a ter, como aconteceu comigo, é como se o corpo cegasse, o meu corpo não se consegue ver se não tiver olhos, não é? Por isso, eu é que tenho de olhar por ele — ser os seus olhos. É isto?»

«É isso, é isso mesmo», disse eu, «você podia ser fisiologista.»

«Vou mesmo ter de ser uma espécie de fisiologista», acres­centou «porque a minha fisiologia avariou-se e, se calhar, nunca mais volta a ficar bem…»

Ainda bem que Cristina se mostrou tão forte desde o iní­cio, porque embora a inflamação desaparecesse e o líquido espinal voltasse ao normal, as lesões provocadas nas fibras propriocetivas mantiveram-se. Não houve recuperação neu­rológica nem numa semana, nem num ano. Na realidade, não tem havido recuperação neurológica durante este últimos oito anos embora ela tenha uma vida (mais ou menos) normal por­que se conseguiu adaptar do ponto de vista neurológico mas sobretudo moral e emocionalmente.

Durante a primeira semana Cristina não fez nada. Deixou-se ficar deitada, apática, quase não comendo. Estava num estado de choque, horror e desespero completos. Que género de vida a esperava se não houvesse recuperação? Que tipo de vida, em que todos os movimentos eram feitos artificial­mente? Que tipo de vida, se ela não sentia o seu próprio corpo?

(…) Continua a sentir, com a continuada perda de proprioceção, que o seu corpo está morto, que é irreal, que não lhe pertence, não se conse­gue apropriar dele. Não consegue descrever o seu estado por palavras, só através de analogias com os outros sentidos: «Sinto que o meu corpo está cego e surdo em relação a si próprio», estas são as suas palavras. Não encontra uma forma mais direta de descrever esta escuridão (ou silêncio) sensorial parecido com a cegueira ou a surdez. Nós também não encontramos termos adequados e a sociedade não tem, nem palavras nem compreensão, para com estes estados. Os cegos, pelo menos são tratados com solicitude porque as pes­soas podem imaginar o que é ser-se cego. Mas quando Cris­tina sobe, devagar e desajeitada, para o autocarro não recebe nada a não ser olhares e comentários furiosos e incompreensivos: «Qual é o problema? Você é cega ou bebeu de mais?» O que é que ela pode responder? «Não tenho proprioce­ção?» A falta de apoio e de compreensão social é mais uma prova por que ela tem de passar. Cristina é deficiente, mas como a sua deficiência não se vê (aparentemente não tem nada, não é cega nem paralítica) normalmente é tratada como uma louca ou como se estivesse a tentar enganar as pessoas.

(Sacks, Oliver, O homem que confundiu a mulher com um chapéu; Trad. de Maria Vasconcelos Moreira, Relógio d’Água, Col. Antropos,  1998).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.