Sobre a ira

Admitamos que a ira é um desejo acompanhado de dor que nos incita a exercer vingança explícita por causa de um desdém manifestado contra nós, ou contra pessoas da nossa convivência, sem haver razão para tal. Se a ira é isto, forçoso é que o iracundo se volte sempre contra um determinado indivíduo, por exemplo, contra Cléon, mas não contra o homem em geral; e que seja por algum agravo que lhe fizeram ou pretendiam fazer, a ele ou a algum dos seus; além disso, toda a ira é acompanhada de certo prazer, resultante da esperança que se tem de uma futura vingança. De facto, há prazer em pensar que se pode alcançar o que se deseja; mas como ninguém deseja o que lhe é manifestamente impossível, o homem irascível deseja o que lhe é possível. Por isso, razão tem o poeta para dizer sobre a ira:

que, muito mais doce do que o mel destilado,

cresce nos corações dos homens.

Por isso, há um certo prazer que acompanha a ira, e também porque o homem vive na ideia de vingança, e a representação que então se gera nele inspira-lhe prazer, tal como a que se produz nos sonhos.

O desdém é uma opinião em acto relativo a algo que, aparentemente, não parece digno de qualquer crédito (pois pensamos que tanto as coisas más como as boas são dignas de interesse, assim como o que para elas tende, ao passo que, ao que não damos nenhuma ou muito pouca importância supomo-lo desprovido de valor). Há três espécies de desdém: o desprezo, o vexame e o ultraje.

(…)

Pelo que fica dito, já se vê com clareza quais são as disposições em que se encontram as pessoas que se encolerizam, contra quem o fazem e por que causas. Os seres humanos encolerizam-se quando sentem tristeza, pois quem sente amargura é porque deseja alguma coisa. Ora, se algum obstáculo se opuser ao seu desejo, quer directamente, como por exemplo, quando alguém o impede de beber, quer indirectamente, em ambos os casos o resultado é nitidamente o mesmo. O ser humano encoleriza-se, se alguém se opuser à sua acção ou se alguém não colaborar com ele, ou se, de alguma forma, alguém o perturbar quando está em tal estado. (…) Na verdade, cada pessoa abre caminho à sua própria ira, vítima da paixão que a possui. De resto, acontece o mesmo quando surge algo que é contrário à nossa expectativa, uma vez que o inesperado entristece muito mais, assim como o imprevisto causa mais prazer quando vem ao encontro dos nossos desejos.

(Aristóteles, Retórica; INCM, Estudos Gerais, Série Universitária, Clássicos de Filosofia, Lisboa, 1988. [1378a-1379a], Livro II, 2, pp.107-109).

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