Sobre a inimizade

Quanto à inimizade e ao ódio há que estudá-los a partir dos seus contrários. A ira, o vexame e a calúnia são as causas da inimizade. Ora, a ira resulta de coisas que afectam directamente uma pessoa, mas a hostilidade também pode resultar de coisas que nada têm de pessoal: basta supormos que uma pessoa tem tal ou tal carácter para a odiarmos. Por outro lado, a ira refere-se sempre a um indivíduo particular, por exemplo, a Cálias ou a Sócrates, mas o ódio também abrange toda uma classe de pessoas: toda a gente odeia o ladrão e o sicofanta. O tempo pode curar a ira, mas o ódio é incurá­vel. A primeira procura meter dó [fazer dor], o segundo procura fazer mal, já que o homem irado deseja sentir o mal que causa, mas o que odeia nada lhe importa isso. As coisas que causam pena [dor] são todas sen­síveis, mas as que causam maiores males são as menos sensíveis, como a injustiça e a loucura; com efeito, a presença do mal não nos causa pena. A ira também é acompanhada de pena, mas não o ódio; o homem irado sente pena, mas não o que odeia. Um pode sentir compaixão em muitas circunstâncias, o outro nunca; o primeiro deseja que aquele contra quem está irado sofra por sua vez; o segundo, que deixe de existir aquele a quem odeia.

Do que até agora dissemos, resulta claro que é possível demonstrar que classe de pessoas são inimigas e amigas, e fazer com que o sejam se não o forem, ou refutá-las se afirmam que o são; e se, devido à ira ou à iminizade, se tornam nossas adversárias, então há que ‘encaixá-las’ nas duas categorias, conforme cada um prefira.

 (Aristóteles, Retórica; INCM, Estudos Gerais, Série Universitária, Clássicos de Filosofia, Lisboa, 1998. [1382a] Livro II, 4, pp. 117-118).

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